Resposta curta
O hospital privado pode pôr como condição do contrato, mas nenhuma lei obriga o médico a ter CNPJ, e a PJ não pode esconder um emprego: se há chefe, escala imposta e valor fixo, a Justiça pode reconhecer vínculo. Em hospital público, a regra é concurso ou licitação.
Este texto explica as regras em palavras simples, mostra quanto vale uma carteira assinada em reais e o que perguntar antes de assinar. Ele não é um parecer jurídico: para decidir o seu caso, fale com um advogado trabalhista.
O que é pejotização médica?
Pejotização é quando quem contrata pede que o profissional trabalhe como PJ (pessoa jurídica, ou seja, uma empresa com CNPJ) em vez de ser empregado com carteira assinada pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho, a lei do emprego). Na medicina isso é comum: o hospital paga a nota fiscal da sua empresa, e não um salário.
A palavra costuma aparecer com sentido ruim, mas a PJ em si não é ilegal. O problema é a PJ de fachada: a empresa existe só no papel, e a rotina é de funcionário.
O hospital pode exigir CNPJ para contratar?
O hospital privado pode pôr isso como condição do contrato, e o médico pode aceitar ou recusar. Não existe lei que proíba um hospital de contratar empresas médicas. A terceirização (contratar outra empresa para fazer um serviço, inclusive a atividade principal) é permitida pela Lei 6.019/1974, art. 4º-A, e o Supremo Tribunal Federal (STF) já disse que ela é lícita, no julgamento da ADPF 324 e no Tema 725, em 30/08/2018 (página do Tema 725 no STF).
Também não existe lei que obrigue o médico a ter CNPJ para trabalhar. Você pode trabalhar como pessoa física, como empregado ou como autônomo. O que muda é quem aceita contratar você de cada jeito.
O limite é este: a CLT diz que é empregado quem trabalha de forma não eventual, sob as ordens de alguém e recebendo salário (art. 3º). E diz que é nulo o ato feito para fraudar essas regras (art. 9º). Por isso o que conta é a rotina real, não o nome do contrato.
E em hospital público?
Em hospital público a conversa é outra. A regra para trabalhar lá é concurso público ou contratação por licitação ou chamamento (um edital aberto a empresas). Obrigar médicos contratados como pessoa física a virar sócios de empresa (PJ) já foi barrado por uma juíza do Trabalho na Paraíba. Em janeiro de 2025, a pedido do Ministério Público do Trabalho, ela mandou o governo da Paraíba parar de exigir que médicos virassem sócios de empresas para trabalhar nos hospitais estaduais, com multa de R$ 1.000,00 por médico atingido, por dia (decisão da Justiça do Trabalho na Paraíba, a pedido do MPT-PB, janeiro de 2025). Foi a decisão de uma juíza num caso, não uma regra para todo o país, e o assunto ainda está em discussão nos tribunais. Se isso acontece com você, procure o sindicato dos médicos do seu estado.
Por que tantos hospitais preferem PJ?
Porque sai mais barato e mais simples para eles. Um exemplo com um plantão de R$ 2.000,00:
| Como o médico é pago | O que o hospital paga além do plantão |
|---|---|
| Pessoa física, por RPA (recibo de pagamento de autônomo) | 20% de INSS da empresa sobre o valor: R$ 400,00 (Lei 8.212/1991, art. 22, III) |
| Empregado (CLT) | INSS da empresa, FGTS, 13º, férias com 1/3 e outros direitos |
| Empresa médica (PJ), com nota fiscal | Nada disso: os impostos da nota são da sua empresa |
Ou seja, o custo que sai do hospital passa, em parte, para você. Isso não é ilegal por si só. Mas é bom saber, porque a proposta PJ só vale a pena se o valor do plantão compensar.
Quando a PJ é legítima e quando parece emprego disfarçado?
A Justiça olha principalmente para quatro pontos (além de você trabalhar como pessoa, e não como empresa de verdade com estrutura própria): se é você, e só você, quem precisa trabalhar (pessoalidade); se o trabalho é contínuo (não eventual); se você recebe por ele (onerosidade); e, principalmente, se você recebe ordens como um funcionário (subordinação). Na prática, os sinais são estes:
| Ponto | Parece prestador de serviço (PJ) | Parece emprego |
|---|---|---|
| Escala | Você escolhe os plantões e pode recusar sem punição | A escala vem pronta e recusar dá advertência ou corte |
| Faltas | Você avisa e passa o plantão para outro médico credenciado | Precisa de atestado ou de autorização do chefe para faltar |
| Pagamento | Por plantão feito, com valor negociado | Valor fixo todo mês, igual a um salário, faça o que fizer |
| Chefia | Segue protocolos clínicos do hospital | Tem chefe que controla horário, pausa e metas como de funcionário |
| Exclusividade | Pode trabalhar em outros hospitais | É proibido ou punido por trabalhar em outro lugar |
| Empresa | A empresa é sua, com contador, contas e outros clientes | O hospital mandou abrir, indicou o contador e paga só ele |
Dois cuidados. Seguir protocolo, fazer credenciamento e responder ao diretor técnico faz parte da segurança do paciente e, sozinho, não vira emprego. E nenhum sinal decide o caso sozinho: o juiz olha o conjunto. A CLT ainda diz que contratar um autônomo com todas as formalidades, com ou sem exclusividade, não cria emprego só por isso (art. 442-B).
O que o STF está decidindo sobre pejotização?
O STF vai fixar uma regra para todo o país no Tema 1.389 (processo ARE 1.532.603). São três perguntas (notícia do STF):
- Contratar autônomo ou empresa para prestar serviço é lícito?
- Quem julga a suspeita de fraude: a Justiça do Trabalho ou a Justiça comum?
- Quem precisa provar a fraude: o trabalhador ou a empresa que contratou?
Até a data desta revisão (26/10/2026), não havia decisão final nem data marcada. Em junho de 2026 (notícia do STF de 18/06/2026), o relator, ministro Gilmar Mendes, liberou esses processos para seguir na primeira instância (a Vara do Trabalho, onde a ação começa) e nos TRTs (Tribunais Regionais do Trabalho, que julgam o primeiro recurso). Depois do julgamento no TRT, eles voltam a ficar parados até o STF decidir (notícia do STF). Ou seja: a regra ainda pode mudar. Antes de qualquer decisão sobre o seu caso, confira a situação com um advogado.
Quanto vale a carteira assinada em reais?
Para comparar uma proposta PJ com uma proposta CLT, some os direitos que vêm com a carteira. Exemplo ilustrativo com salário de R$ 10.000,00 por mês:
| Direito do empregado | Por ano | Fonte |
|---|---|---|
| 12 salários (inclui o mês de férias pago) | R$ 120.000,00 | Constituição, art. 7º |
| 13º salário (um salário extra no fim do ano) | R$ 10.000,00 | Constituição, art. 7º, VIII |
| 1/3 a mais nas férias | R$ 3.333,33 | Constituição, art. 7º, XVII |
| FGTS (8% depositados pelo patrão numa conta em seu nome) | R$ 10.666,67 | Lei 8.036/1990, art. 15 |
| Total por ano | R$ 144.000,00 | |
| Igual a, por mês, em 12 meses | R$ 12.000,00 |
Resultado: só para empatar nesses direitos, antes de qualquer imposto, a proposta PJ precisa pagar uns 20% a mais, ou R$ 12.000,00 por mês pelo mesmo trabalho. E ainda ficam de fora o aviso prévio, o seguro-desemprego e a multa de 40% do FGTS se você for demitido sem justa causa.
Mas os dois lados pagam impostos. Por isso, compare o que sobra no bolso. Os números abaixo saem do motor do nosso simulador, com as regras de 2026.
Na CLT, salário de R$ 10.000,00: saem INSS do empregado (R$ 988,09, o máximo pela tabela de 2026) e imposto de renda na fonte (R$ 1.569,55, pela tabela mensal). O salário líquido fica em R$ 7.442,36. Somando o 13º e o 1/3 de férias (também já com o INSS e o imposto descontados), mais o FGTS, e dividindo por 12, a CLT deixa cerca de R$ 9.152,84 por mês.
Na PJ, nota de R$ 12.000,00: o exemplo usa o Lucro Presumido (um regime de imposto em que a Receita presume o lucro da empresa como uma parte fixa da nota) em São Paulo. O imposto da nota fica em 13,33%. Além dele, a empresa paga o pró-labore (a retirada mensal do sócio, que paga INSS), de pelo menos 1 salário mínimo (R$ 1.621,00): a empresa recolhe 20% de INSS sobre ele (Lei 8.212/1991, art. 22, III), e você tem 11% descontados (art. 30, § 4º, e Lei 10.666/2003, art. 4º).
| Empresa médica (PJ), por mês | Valor |
|---|---|
| Nota fiscal emitida para o hospital | R$ 12.000,00 |
| Imposto da nota (13,33%) | − R$ 1.599,60 |
| INSS do pró-labore de 1 salário mínimo (empresa 20% + sócio 11%) | − R$ 502,51 |
| Contador (faixa de R$ 300 a R$ 500 no simulador; usamos R$ 400) | − R$ 400,00 |
| Anuidade do CRM-PJ (o registro da empresa no conselho; R$ 948,00 por ano em SP, 2026, dividido por 12) | − R$ 79,00 |
| Certificado digital (a assinatura eletrônica da empresa; R$ 220,00 por ano, dividido por 12) | − R$ 18,33 |
| Sobra estimada para você | R$ 9.400,56 |
O exemplo usa R$ 12 mil por mês só para comparar. Na vida real, o médico PJ recebe por plantão feito, e em geral de mais de um hospital. Valor fixo todo mês, de um hospital só, é um dos sinais de emprego da tabela acima.
Sobre o CRM-PJ: R$ 948,00 é o valor cheio de 2026. A empresa de 1 ou 2 médicos, só com atividade médica, pode ter desconto do CFM e pagar R$ 189,60 por ano (R$ 15,80 por mês), se pedir até janeiro. Com o desconto, sobram R$ 63,20 a mais por mês.
Quem ganha neste exemplo? A PJ de R$ 12 mil deixa cerca de R$ 9.400,56 por mês, contra R$ 9.152,84 da CLT de R$ 10 mil: uns R$ 248,00 a mais na PJ. Mas a PJ vem sem férias pagas, sem FGTS, sem aviso prévio e sem seguro-desemprego. Se você parar um mês, não recebe. Com outro regime (o Simples Nacional, por exemplo), a conta muda: o simulador compara os caminhos.
Ver a minha conta com o meu plantão
Para comparar CPF e CNPJ, leia Médico: vale mais a pena ser PF ou PJ?
Quais riscos a PJ traz para o médico?
- Imposto: a lei aceita que o serviço do médico seja prestado por empresa e pague imposto de empresa (Lei 11.196/2005, art. 129). Mas o mesmo artigo ressalva o abuso (art. 50 do Código Civil). Se a empresa existe só no papel para pagar menos imposto de renda, a Receita pode cobrar a diferença, com multa.
- Erro médico: o médico responde pessoalmente por dano ao paciente quando há culpa, seja PJ ou CLT (Código de Defesa do Consumidor, art. 14, § 4º). Como PJ, a sua empresa também pode ser chamada junto com o hospital. Por isso, muitos médicos têm seguro de responsabilidade civil profissional.
E se o hospital pedir para eu virar sócio de uma empresa?
Às vezes a proposta é entrar como sócio de uma empresa que já existe, com vários médicos, em vez de abrir a sua. Antes de aceitar, entenda que sócio não é funcionário (veja como funciona uma sociedade de médicos): você assina o contrato social (o documento que cria a empresa) e passa a ter deveres de dono.
- Peça o contrato social e leia quem administra a empresa e quem decide.
- Pergunte quem é o contador e como você vê as notas e os impostos pagos em seu nome.
- Pergunte como você sai da empresa e o que acontece com as dívidas dela.
Na dúvida, leve o contrato a um advogado antes de assinar.
Quais são as saídas se eu não quiser abrir empresa?
- Negociar CLT: alguns hospitais têm vagas com carteira. Use a tabela acima para comparar.
- Trabalhar como autônomo, pela pessoa física: o hospital paga por RPA e desconta INSS de 11% e imposto de renda na fonte. O desconto do INSS tem limite: ele para no teto do INSS (o maior valor sobre o qual se paga INSS no mês, somando todas as fontes). Acima dele, não sai mais INSS. Nem todo hospital aceita, pelo custo de 20% que explicamos acima.
- Abrir a sua própria empresa: é o caminho mais comum de quem dá plantão em vários hospitais. Veja como abrir um CNPJ médico, passo a passo e qual regime paga menos.
Se você está começando, leia também o que fazer no primeiro mês de plantão.
O que perguntar antes de assinar um contrato PJ?
- Posso recusar um plantão? O que acontece se eu recusar?
- Posso passar um plantão para outro médico credenciado?
- Como é calculado o valor: por plantão, por hora ou fixo?
- Em quantos dias depois da nota o hospital paga?
- O hospital desconta impostos da nota? Quais? (veja por que o hospital desconta imposto da nota)
- Há exclusividade ou multa por trabalhar em outro lugar?
- Há multa por falta ou por sair do contrato? Com quanto tempo de aviso?
Guarde o contrato, as escalas, as notas e os comprovantes de pagamento. Eles organizam a sua vida e servem de prova se houver discussão um dia.
Acho que a minha PJ é emprego disfarçado. O que eu faço?
Aqui não damos parecer jurídico. O caminho é:
- Reúna documentos: contrato, escalas, mensagens com ordens de horário, comprovantes de pagamento.
- Fale com um advogado trabalhista ou com o sindicato dos médicos do seu estado. Eles avaliam se vale a pena e quais são os riscos.
- Fique de olho no prazo: pela Constituição (art. 7º, XXIX), a ação trabalhista pode ser aberta até 2 anos depois do fim do contrato e cobra, em regra, os últimos 5 anos.
- Situações que atingem muitos médicos de uma vez também podem ser levadas ao Ministério Público do Trabalho.
Uma decisão que reconhece emprego também tem efeitos sobre a sua empresa e seus impostos. Por isso, envolva o advogado e quem cuida da sua contabilidade.
Onde a adm.doctor ajuda no dia a dia do plantão?
A adm.doctor cuida da parte chata de receber pelo plantão:
- O Concierge cadastra os seus hospitais.
- O nosso time emite a nota fiscal para o hospital.
- No plano Associado, o imposto é pago antes do repasse (a transferência do dinheiro para você), e o PIX líquido (já sem imposto) cai na sua conta pessoal. Tem empresa própria? Fale com a gente.
- No app, você vê as faturas a receber de cada hospital, com o status de cada uma.
- Pode haver antecipação do recebível, com custo. Fale com a gente no WhatsApp para saber se o seu plantão é elegível.
Sem taxa de adesão e sem multa de rescisão. Questões trabalhistas com o hospital ficam com o seu advogado.
Perguntas rápidas
O hospital pode me obrigar a abrir CNPJ?
Em hospital privado, pode pôr como condição para contratar, e você pode recusar. Nenhuma lei obriga o médico a ter empresa. Em hospital público, a regra é concurso ou licitação. Obrigar médicos contratados como pessoa física a virar sócios de PJ já foi barrado por uma juíza do Trabalho na Paraíba (jan/2025).
Ter CNPJ impede que a Justiça reconheça vínculo de emprego?
Não. A Justiça olha a rotina real: ordens, escala imposta e salário fixo pesam mais que o contrato.
O hospital pode me descredenciar se eu recusar abrir PJ?
No hospital privado, se você é prestador, ele pode deixar de contratar você. Se você hoje é empregado e mandam virar PJ para manter a mesma rotina, guarde as provas e fale com um advogado ou com o sindicato: esse é o caso típico de fraude (CLT, art. 9º).
É verdade que quem tem que provar a fraude é o médico?
Hoje, em regra, quem alega prova: quem diz que a PJ esconde um emprego precisa mostrar os sinais. Essa é uma das três perguntas do Tema 1.389 no STF, então a regra pode mudar.
O STF já decidiu se a pejotização é legal?
Ainda não. O Tema 1.389 estava sem decisão final em 26/10/2026.
Quanto a PJ precisa pagar a mais para valer a pena?
No exemplo de salário de R$ 10.000,00, uns 20% a mais (R$ 12.000,00) para cobrir 13º, férias e FGTS. Depois dos impostos, a PJ de R$ 12 mil no Lucro Presumido deixa cerca de R$ 9.400,56 por mês, contra R$ 9.152,84 da CLT. Faça a sua conta no simulador.
Seguir os protocolos do hospital me torna empregado?
Sozinho, não. Protocolo é segurança do paciente. Pesa mais ter chefe controlando horário, faltas e pagamento fixo.
Médico PJ tem direito a férias e 13º?
Não, a menos que isso esteja no contrato ou que a Justiça reconheça o vínculo de emprego. Na PJ, você recebe pelo que faturou.
O CFM proíbe a pejotização?
Não encontramos norma do CFM (Conselho Federal de Medicina) que proíba o médico de trabalhar por empresa. O CFM exige que a empresa médica tenha registro no CRM do estado ( Resolução CFM 1.980/2011 ). E a ética médica vale igual, seja você PJ ou CLT.
A adm.doctor entra com ação trabalhista?
Não. Questões trabalhistas ficam com o seu advogado. A adm.doctor cuida da nota fiscal do plantão. No plano Associado, também paga o imposto antes do repasse e manda o PIX líquido. Tem empresa própria? Fale com a gente.