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Pejotização médica: o hospital pode exigir que o médico seja PJ?

Escrito por Equipe adm.doctor · Publicado em · 14 min de leitura

Capa do artigo "Pejotização médica: o hospital pode exigir que o médico seja PJ?", com o logotipo da adm.doctor

Resposta curta

O hospital privado pode pôr como condição do contrato, mas nenhuma lei obriga o médico a ter CNPJ, e a PJ não pode esconder um emprego: se há chefe, escala imposta e valor fixo, a Justiça pode reconhecer vínculo. Em hospital público, a regra é concurso ou licitação.

Este texto explica as regras em palavras simples, mostra quanto vale uma carteira assinada em reais e o que perguntar antes de assinar. Ele não é um parecer jurídico: para decidir o seu caso, fale com um advogado trabalhista.

O que é pejotização médica?

Pejotização é quando quem contrata pede que o profissional trabalhe como PJ (pessoa jurídica, ou seja, uma empresa com CNPJ) em vez de ser empregado com carteira assinada pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho, a lei do emprego). Na medicina isso é comum: o hospital paga a nota fiscal da sua empresa, e não um salário.

A palavra costuma aparecer com sentido ruim, mas a PJ em si não é ilegal. O problema é a PJ de fachada: a empresa existe só no papel, e a rotina é de funcionário.

O hospital pode exigir CNPJ para contratar?

O hospital privado pode pôr isso como condição do contrato, e o médico pode aceitar ou recusar. Não existe lei que proíba um hospital de contratar empresas médicas. A terceirização (contratar outra empresa para fazer um serviço, inclusive a atividade principal) é permitida pela Lei 6.019/1974, art. 4º-A, e o Supremo Tribunal Federal (STF) já disse que ela é lícita, no julgamento da ADPF 324 e no Tema 725, em 30/08/2018 (página do Tema 725 no STF).

Também não existe lei que obrigue o médico a ter CNPJ para trabalhar. Você pode trabalhar como pessoa física, como empregado ou como autônomo. O que muda é quem aceita contratar você de cada jeito.

O limite é este: a CLT diz que é empregado quem trabalha de forma não eventual, sob as ordens de alguém e recebendo salário (art. 3º). E diz que é nulo o ato feito para fraudar essas regras (art. 9º). Por isso o que conta é a rotina real, não o nome do contrato.

E em hospital público?

Em hospital público a conversa é outra. A regra para trabalhar lá é concurso público ou contratação por licitação ou chamamento (um edital aberto a empresas). Obrigar médicos contratados como pessoa física a virar sócios de empresa (PJ) já foi barrado por uma juíza do Trabalho na Paraíba. Em janeiro de 2025, a pedido do Ministério Público do Trabalho, ela mandou o governo da Paraíba parar de exigir que médicos virassem sócios de empresas para trabalhar nos hospitais estaduais, com multa de R$ 1.000,00 por médico atingido, por dia (decisão da Justiça do Trabalho na Paraíba, a pedido do MPT-PB, janeiro de 2025). Foi a decisão de uma juíza num caso, não uma regra para todo o país, e o assunto ainda está em discussão nos tribunais. Se isso acontece com você, procure o sindicato dos médicos do seu estado.

Por que tantos hospitais preferem PJ?

Porque sai mais barato e mais simples para eles. Um exemplo com um plantão de R$ 2.000,00:

Como o médico é pagoO que o hospital paga além do plantão
Pessoa física, por RPA (recibo de pagamento de autônomo)20% de INSS da empresa sobre o valor: R$ 400,00 (Lei 8.212/1991, art. 22, III)
Empregado (CLT)INSS da empresa, FGTS, 13º, férias com 1/3 e outros direitos
Empresa médica (PJ), com nota fiscalNada disso: os impostos da nota são da sua empresa

Ou seja, o custo que sai do hospital passa, em parte, para você. Isso não é ilegal por si só. Mas é bom saber, porque a proposta PJ só vale a pena se o valor do plantão compensar.

Quando a PJ é legítima e quando parece emprego disfarçado?

A Justiça olha principalmente para quatro pontos (além de você trabalhar como pessoa, e não como empresa de verdade com estrutura própria): se é você, e só você, quem precisa trabalhar (pessoalidade); se o trabalho é contínuo (não eventual); se você recebe por ele (onerosidade); e, principalmente, se você recebe ordens como um funcionário (subordinação). Na prática, os sinais são estes:

PontoParece prestador de serviço (PJ)Parece emprego
EscalaVocê escolhe os plantões e pode recusar sem puniçãoA escala vem pronta e recusar dá advertência ou corte
FaltasVocê avisa e passa o plantão para outro médico credenciadoPrecisa de atestado ou de autorização do chefe para faltar
PagamentoPor plantão feito, com valor negociadoValor fixo todo mês, igual a um salário, faça o que fizer
ChefiaSegue protocolos clínicos do hospitalTem chefe que controla horário, pausa e metas como de funcionário
ExclusividadePode trabalhar em outros hospitaisÉ proibido ou punido por trabalhar em outro lugar
EmpresaA empresa é sua, com contador, contas e outros clientesO hospital mandou abrir, indicou o contador e paga só ele

Dois cuidados. Seguir protocolo, fazer credenciamento e responder ao diretor técnico faz parte da segurança do paciente e, sozinho, não vira emprego. E nenhum sinal decide o caso sozinho: o juiz olha o conjunto. A CLT ainda diz que contratar um autônomo com todas as formalidades, com ou sem exclusividade, não cria emprego só por isso (art. 442-B).

O que o STF está decidindo sobre pejotização?

O STF vai fixar uma regra para todo o país no Tema 1.389 (processo ARE 1.532.603). São três perguntas (notícia do STF):

  1. Contratar autônomo ou empresa para prestar serviço é lícito?
  2. Quem julga a suspeita de fraude: a Justiça do Trabalho ou a Justiça comum?
  3. Quem precisa provar a fraude: o trabalhador ou a empresa que contratou?

Até a data desta revisão (26/10/2026), não havia decisão final nem data marcada. Em junho de 2026 (notícia do STF de 18/06/2026), o relator, ministro Gilmar Mendes, liberou esses processos para seguir na primeira instância (a Vara do Trabalho, onde a ação começa) e nos TRTs (Tribunais Regionais do Trabalho, que julgam o primeiro recurso). Depois do julgamento no TRT, eles voltam a ficar parados até o STF decidir (notícia do STF). Ou seja: a regra ainda pode mudar. Antes de qualquer decisão sobre o seu caso, confira a situação com um advogado.

Quanto vale a carteira assinada em reais?

Para comparar uma proposta PJ com uma proposta CLT, some os direitos que vêm com a carteira. Exemplo ilustrativo com salário de R$ 10.000,00 por mês:

Direito do empregadoPor anoFonte
12 salários (inclui o mês de férias pago)R$ 120.000,00Constituição, art. 7º
13º salário (um salário extra no fim do ano)R$ 10.000,00Constituição, art. 7º, VIII
1/3 a mais nas fériasR$ 3.333,33Constituição, art. 7º, XVII
FGTS (8% depositados pelo patrão numa conta em seu nome)R$ 10.666,67Lei 8.036/1990, art. 15
Total por anoR$ 144.000,00
Igual a, por mês, em 12 mesesR$ 12.000,00

Resultado: só para empatar nesses direitos, antes de qualquer imposto, a proposta PJ precisa pagar uns 20% a mais, ou R$ 12.000,00 por mês pelo mesmo trabalho. E ainda ficam de fora o aviso prévio, o seguro-desemprego e a multa de 40% do FGTS se você for demitido sem justa causa.

Mas os dois lados pagam impostos. Por isso, compare o que sobra no bolso. Os números abaixo saem do motor do nosso simulador, com as regras de 2026.

Na CLT, salário de R$ 10.000,00: saem INSS do empregado (R$ 988,09, o máximo pela tabela de 2026) e imposto de renda na fonte (R$ 1.569,55, pela tabela mensal). O salário líquido fica em R$ 7.442,36. Somando o 13º e o 1/3 de férias (também já com o INSS e o imposto descontados), mais o FGTS, e dividindo por 12, a CLT deixa cerca de R$ 9.152,84 por mês.

Na PJ, nota de R$ 12.000,00: o exemplo usa o Lucro Presumido (um regime de imposto em que a Receita presume o lucro da empresa como uma parte fixa da nota) em São Paulo. O imposto da nota fica em 13,33%. Além dele, a empresa paga o pró-labore (a retirada mensal do sócio, que paga INSS), de pelo menos 1 salário mínimo (R$ 1.621,00): a empresa recolhe 20% de INSS sobre ele (Lei 8.212/1991, art. 22, III), e você tem 11% descontados (art. 30, § 4º, e Lei 10.666/2003, art. 4º).

Empresa médica (PJ), por mêsValor
Nota fiscal emitida para o hospitalR$ 12.000,00
Imposto da nota (13,33%)− R$ 1.599,60
INSS do pró-labore de 1 salário mínimo (empresa 20% + sócio 11%)− R$ 502,51
Contador (faixa de R$ 300 a R$ 500 no simulador; usamos R$ 400)− R$ 400,00
Anuidade do CRM-PJ (o registro da empresa no conselho; R$ 948,00 por ano em SP, 2026, dividido por 12)− R$ 79,00
Certificado digital (a assinatura eletrônica da empresa; R$ 220,00 por ano, dividido por 12)− R$ 18,33
Sobra estimada para vocêR$ 9.400,56

O exemplo usa R$ 12 mil por mês só para comparar. Na vida real, o médico PJ recebe por plantão feito, e em geral de mais de um hospital. Valor fixo todo mês, de um hospital só, é um dos sinais de emprego da tabela acima.

Sobre o CRM-PJ: R$ 948,00 é o valor cheio de 2026. A empresa de 1 ou 2 médicos, só com atividade médica, pode ter desconto do CFM e pagar R$ 189,60 por ano (R$ 15,80 por mês), se pedir até janeiro. Com o desconto, sobram R$ 63,20 a mais por mês.

Quem ganha neste exemplo? A PJ de R$ 12 mil deixa cerca de R$ 9.400,56 por mês, contra R$ 9.152,84 da CLT de R$ 10 mil: uns R$ 248,00 a mais na PJ. Mas a PJ vem sem férias pagas, sem FGTS, sem aviso prévio e sem seguro-desemprego. Se você parar um mês, não recebe. Com outro regime (o Simples Nacional, por exemplo), a conta muda: o simulador compara os caminhos.

Ver a minha conta com o meu plantão

Para comparar CPF e CNPJ, leia Médico: vale mais a pena ser PF ou PJ?

Quais riscos a PJ traz para o médico?

  • Imposto: a lei aceita que o serviço do médico seja prestado por empresa e pague imposto de empresa (Lei 11.196/2005, art. 129). Mas o mesmo artigo ressalva o abuso (art. 50 do Código Civil). Se a empresa existe só no papel para pagar menos imposto de renda, a Receita pode cobrar a diferença, com multa.
  • Erro médico: o médico responde pessoalmente por dano ao paciente quando há culpa, seja PJ ou CLT (Código de Defesa do Consumidor, art. 14, § 4º). Como PJ, a sua empresa também pode ser chamada junto com o hospital. Por isso, muitos médicos têm seguro de responsabilidade civil profissional.

E se o hospital pedir para eu virar sócio de uma empresa?

Às vezes a proposta é entrar como sócio de uma empresa que já existe, com vários médicos, em vez de abrir a sua. Antes de aceitar, entenda que sócio não é funcionário (veja como funciona uma sociedade de médicos): você assina o contrato social (o documento que cria a empresa) e passa a ter deveres de dono.

  • Peça o contrato social e leia quem administra a empresa e quem decide.
  • Pergunte quem é o contador e como você vê as notas e os impostos pagos em seu nome.
  • Pergunte como você sai da empresa e o que acontece com as dívidas dela.

Na dúvida, leve o contrato a um advogado antes de assinar.

Quais são as saídas se eu não quiser abrir empresa?

  • Negociar CLT: alguns hospitais têm vagas com carteira. Use a tabela acima para comparar.
  • Trabalhar como autônomo, pela pessoa física: o hospital paga por RPA e desconta INSS de 11% e imposto de renda na fonte. O desconto do INSS tem limite: ele para no teto do INSS (o maior valor sobre o qual se paga INSS no mês, somando todas as fontes). Acima dele, não sai mais INSS. Nem todo hospital aceita, pelo custo de 20% que explicamos acima.
  • Abrir a sua própria empresa: é o caminho mais comum de quem dá plantão em vários hospitais. Veja como abrir um CNPJ médico, passo a passo e qual regime paga menos.

Se você está começando, leia também o que fazer no primeiro mês de plantão.

O que perguntar antes de assinar um contrato PJ?

  1. Posso recusar um plantão? O que acontece se eu recusar?
  2. Posso passar um plantão para outro médico credenciado?
  3. Como é calculado o valor: por plantão, por hora ou fixo?
  4. Em quantos dias depois da nota o hospital paga?
  5. O hospital desconta impostos da nota? Quais? (veja por que o hospital desconta imposto da nota)
  6. Há exclusividade ou multa por trabalhar em outro lugar?
  7. Há multa por falta ou por sair do contrato? Com quanto tempo de aviso?

Guarde o contrato, as escalas, as notas e os comprovantes de pagamento. Eles organizam a sua vida e servem de prova se houver discussão um dia.

Acho que a minha PJ é emprego disfarçado. O que eu faço?

Aqui não damos parecer jurídico. O caminho é:

  1. Reúna documentos: contrato, escalas, mensagens com ordens de horário, comprovantes de pagamento.
  2. Fale com um advogado trabalhista ou com o sindicato dos médicos do seu estado. Eles avaliam se vale a pena e quais são os riscos.
  3. Fique de olho no prazo: pela Constituição (art. 7º, XXIX), a ação trabalhista pode ser aberta até 2 anos depois do fim do contrato e cobra, em regra, os últimos 5 anos.
  4. Situações que atingem muitos médicos de uma vez também podem ser levadas ao Ministério Público do Trabalho.

Uma decisão que reconhece emprego também tem efeitos sobre a sua empresa e seus impostos. Por isso, envolva o advogado e quem cuida da sua contabilidade.

Onde a adm.doctor ajuda no dia a dia do plantão?

A adm.doctor cuida da parte chata de receber pelo plantão:

  • O Concierge cadastra os seus hospitais.
  • O nosso time emite a nota fiscal para o hospital.
  • No plano Associado, o imposto é pago antes do repasse (a transferência do dinheiro para você), e o PIX líquido (já sem imposto) cai na sua conta pessoal. Tem empresa própria? Fale com a gente.
  • No app, você vê as faturas a receber de cada hospital, com o status de cada uma.
  • Pode haver antecipação do recebível, com custo. Fale com a gente no WhatsApp para saber se o seu plantão é elegível.

Sem taxa de adesão e sem multa de rescisão. Questões trabalhistas com o hospital ficam com o seu advogado.

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Perguntas rápidas

O hospital pode me obrigar a abrir CNPJ?

Em hospital privado, pode pôr como condição para contratar, e você pode recusar. Nenhuma lei obriga o médico a ter empresa. Em hospital público, a regra é concurso ou licitação. Obrigar médicos contratados como pessoa física a virar sócios de PJ já foi barrado por uma juíza do Trabalho na Paraíba (jan/2025).

Ter CNPJ impede que a Justiça reconheça vínculo de emprego?

Não. A Justiça olha a rotina real: ordens, escala imposta e salário fixo pesam mais que o contrato.

O hospital pode me descredenciar se eu recusar abrir PJ?

No hospital privado, se você é prestador, ele pode deixar de contratar você. Se você hoje é empregado e mandam virar PJ para manter a mesma rotina, guarde as provas e fale com um advogado ou com o sindicato: esse é o caso típico de fraude (CLT, art. 9º).

É verdade que quem tem que provar a fraude é o médico?

Hoje, em regra, quem alega prova: quem diz que a PJ esconde um emprego precisa mostrar os sinais. Essa é uma das três perguntas do Tema 1.389 no STF, então a regra pode mudar.

O STF já decidiu se a pejotização é legal?

Ainda não. O Tema 1.389 estava sem decisão final em 26/10/2026.

Quanto a PJ precisa pagar a mais para valer a pena?

No exemplo de salário de R$ 10.000,00, uns 20% a mais (R$ 12.000,00) para cobrir 13º, férias e FGTS. Depois dos impostos, a PJ de R$ 12 mil no Lucro Presumido deixa cerca de R$ 9.400,56 por mês, contra R$ 9.152,84 da CLT. Faça a sua conta no simulador.

Seguir os protocolos do hospital me torna empregado?

Sozinho, não. Protocolo é segurança do paciente. Pesa mais ter chefe controlando horário, faltas e pagamento fixo.

Médico PJ tem direito a férias e 13º?

Não, a menos que isso esteja no contrato ou que a Justiça reconheça o vínculo de emprego. Na PJ, você recebe pelo que faturou.

O CFM proíbe a pejotização?

Não encontramos norma do CFM (Conselho Federal de Medicina) que proíba o médico de trabalhar por empresa. O CFM exige que a empresa médica tenha registro no CRM do estado ( Resolução CFM 1.980/2011 ). E a ética médica vale igual, seja você PJ ou CLT.

A adm.doctor entra com ação trabalhista?

Não. Questões trabalhistas ficam com o seu advogado. A adm.doctor cuida da nota fiscal do plantão. No plano Associado, também paga o imposto antes do repasse e manda o PIX líquido. Tem empresa própria? Fale com a gente.

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